Séries

sábado, 16 de março de 2019

Séries // Genius

Não existe um género de série que seja o meu favorito, como já vos disse algumas vezes. Em determinado momento da minha vida faz sentido ver um tipo de série mais cómico, noutro momento faz mais sentido um drama e, quando me estou a sentir um pouco extra, viro-me para as fantasiosas ou em estilo de documentário - que são uma raridade na minha coleção! Foi o caso de Genius, uma série que desde que saiu tinha curiosidade de ver mas que só agora se proporcionou o momento para tal. 

Ao contrário de uma série normal, Genius divide as suas histórias por temporadas, focando-se em célebres nomes mundiais dos mais variados ramos profissionais – campo artístico, científico ou desportivo. Nas duas temporadas disponíveis, podemos acompanhar a vida de Albert Einstein, físico do mundo conhecido pela sua Teoria da Relatividade e de Pablo Picasso, famoso pintor espanhol que se destacou no cubismo. 


Acompanhar a história de grandes personalidades é sempre um pau de dois gumes, na minha opinião. Se, por um lado, é muito interessante saber como se desenrolaram as suas caminhadas até ao sucesso com que morreram, por outro lado acabamos por conhecer novos pormenores das suas vidas que nos podem desiludir. E este foi o caso. Apesar de saber que existe uma grande diferença cultural entre a época em que estes génios viviam e aquela em que vivemos atualmente, custa-me ver o desprezo com que tratam as mulheres que os rodeiam e a subvalorização do trabalho das mesmas em prol do seu próprio trabalho. 

No entanto, o facto da série ser tão realista até nos pontos mais sensíveis só lhe acrescenta valor. Todos acreditamos que o sucesso acontece apenas para aqueles a quem a fortuna bate à porta. Mas nem sempre é assim. Einstein ensina-nos que o trabalho recompensa e que a persistência é a chave para tudo. Se este não tivesse persistido vezes e vezes sem conta, a sua teoria nunca teria sido aceite dentro da comunidade científica – que tinha a mente especialmente fechada na época. Já Picasso ensina-nos que devemos de nos desafiar sempre, não nos acomodar na nossa zona de conforto e explorar todas as opções até encontrarmos aquela que seja mais fiel à nossa identidade. 

Os atores não se destacam particularmente. Fazem um bom trabalho, entregam as suas falas da melhor forma mas não impressionam com a sua dinâmica em cena ou com uma representação particularmente emocionante, apesar das personagens assim o pedirem. Destaco a interpretação de Samantha Colley, como primeira mulher de Einstein e uma das amantes de Pablo Picasso, que se coloca noutro patamar quando comparativamente com os demais. A banda sonora da série adequa-se perfeitamente às épocas em que esta se passa – mesmo vivendo no mesmo espaço temporal, os caminhos de Einstein e Picasso são muito distintos, sendo as suas culturas e a cidade onde viviam bastante diferentes. A sonoridade adapta-se à cultura em que estes estão inseridos, transportando-nos para um local completamente diferente de uma temporada para a outra.

Sendo uma série da National Geographic e uma série de estilo bibliográfico, não é filmada da forma mais criativa possível, porque não existe margem para grandes efeitos ou alterações de luzes- é uma história real, nua e crua. Ainda assim, acho que cativa o espectador ao ecrã, uma vez que a história saltita entre o passado e o presente das personagens, conferindo maior dinâmica à cena. Sem dúvida que é uma série que vale a pena pela história que nos conta, pelos segredos que revela e que nós nem temos consciência e pela inspiração que é ver como estas pessoas trabalhavam e viviam a sua vida que começou de forma ordinária e passou a brilhante.

"My future is mine and mine alone, so I must take charge of it."


Gostam de séries mais biográficas? Qual foi a vossa temporada favorita de Genius?

Séries // Genius

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

Séries // Sharp Objects

Um dos temas de conversa recorrentes no meu grupo de amigos são as séries que vemos, despertando vivos debates sobre as personagens, as bandas sonoras ou os guiões das mais badaladas séries do momento. Apesar de ver imensas séries, nestas conversas acabo por conhecer algumas das quais nunca tinha ouvido falar ou das quais já tinha ouvido falar mas que nunca tinha visto. Sharp Objects surgiu numa dessas conversas e, largos meses depois, dei-lhe uma oportunidade.

A série conta a história de Camille Preaker, uma problemática jornalista que se debate com problemas de alcoolismo e automutilação, a quem é incutida a tarefa de investigar o homícidio de duas adolescentes em Wind Gap, a cidade onde nasceu e foi criada. O regresso à sua cidade natal traz ao de cima muitos pontos do seu passado que esta não gostaria de recordar. 


Esta série tinha tudo para ser um sucesso e isso notou-se. Baseada no livro de Gillian Flynn, autora que é mais conhecida pelo grande Gone Girl - livro no qual é baseado o filme com o mesmo título -, traz-nos o equilíbrio perfeito entre suspense e drama. Apesar de se desenrolar de uma forma um tanto ou quanto lenta, acaba por nos prender ao ecrã desde o primeiro ao último minuto pela forma genial como todos os pormenores estão pensados e são propositados. Para além da trama central - o homicídio das duas jovens -, que automaticamente nos deixa bastante curiosos com o desenrolar dos acontecimentos, são abordados assuntos como o alcoolismo, relações tóxicas, depressão, automutilação e outras doenças do furo psicológico. Apesar da diversidade de temáticas ser uma das principais razões porque ficamos viciados na série, aquilo que a tornou numa das minhas favoritas que vi nos últimos tempos foi o plot twist final muito inesperado. O facto da narrativa dar uma volta tão grande e nos deixar um pouco pendurados torna esta série ainda mais mágica, porque deixa-nos a questionar as personagens e a forma como a trama se desenrolou sem nunca prevermos aquela situação.

As personagens não nos conquistam imediatamente, e apresentam muitas camadas que vão sendo descobertas ao longo dos vários episódios. As três personagens principais, Camille, Adora e Amma, estão muito bem construídas, são muito coesas e têm personalidades que não são costumes neste tipo de narrativa. Sendo Camille a alcoólica perturbada, com desgosto familiar e uma bagagem emocional imensa e Adora a mãe de alta sociedade que tem uma aparência a manter, com um amor inquestionável pelas suas filhas e por cuidar das mesmas mas secretamente muito instável, é complicado apaixonarmo-nos por Amma, a filha mais nova neste trio, porque aparece como uma adolescente desesperada por atenção, rebelde e verdadeiramente bitchy. Na verdade, esta foi a única personagem que não consegui gostar na trama toda. No entanto, existe um vasto leque de personagens para além deste trio que contribui para a narrativa e que são igualmente interessantes - saliento o pai de família, Adam, e Ashley, a namorada de um dos irmãos das vítimas.

É importante referir o elenco de excelência que a mini-série tem, escolhido ao pormenor de acordo com a personagem. No entanto, tenho que distinguir as duas atrizes principais de entre os demais. Começando pela Amy Adams, conhecida princesa de Hollywood e que aparece num registo completamente fora da sua zona de conforto e, por isso mesmo, super poderoso, cru e genial. Na minha opinião, a escolha mais do que acertada para Camille e que vendeu o papel a cem por cento. A ela, junta-se Patricia Clarkson com uma interpretação de Adora, mãe de Camille e de Amma, absolutamente arrepiante e que lhe entregou o globo de ouro para melhor atriz num papel secundário. A entrega ao papel, a emoção e a postura necessária à posição social da personagem são algumas das coisas que podemos apreciar na interpretação da atriz. Para além disso, a fotografia da série está divinal, o guião bem escrito e coeso e a banda sonora escolhida a dedo para tornar esta uma das melhores séries criminais dos últimos tempos. Se procuram uma série de suspense criminal fora da caixa, com a quantidade certa de mistério e com bons plot twists, então é esta a que devem assistir!

"The face you give to the world tells the world how to treat you."

Já viram esta série? O que acham deste tipo de séries de suspense?

Séries // Sharp Objects

sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

Séries // Shameless

Já vos falei diversas vezes da dificuldade que tenho em riscar séries da minha lista de séries a ver porque, de cada vez que procuro algo novo e com qualidade, acabo sempre por me deixar levar pelas séries mais leves, mais simples ou que sejam recentes. O constante surgimento de novas séries faz com que bons clássicos fiquem para trás e acabem por cair no esquecimento, mesmo que não seja intencionalmente. No entanto, desta vez não me deixei sucumbir pela vontade de ver algo irrelevante e decidi riscar Shameless da minha watchlist - e bendito o dia em que o fiz.

Esta série conta a história da disfuncional família Gallagher, composta por Frank, o pai alcoólatra, lunático e sempre metido nalgum tipo de problema e os seus 6 filhos - Fiona, Lip, Ian, Debbie, Carl e Liam - e de como estes sobrevivem ao seu dia-a-dia sem qualquer supervisão parental, com a falta de dinheiro ao longo do mês para pagar as contas da casa e com todo o drama inerente ao facto de viverem no South Side - a pior zona de Chicago.


As personagens desta série são das mais ricas que já vi, por terem mil camadas, mil facetas e uma bagagem emocional incontestável. A vida dos Gallagher nunca foi fácil, e nunca o será, apesar das personagens batalharem nesse sentido e muitas vezes ao longo da trama sermos enganados a acreditar que sim. Esta é uma série que pega em todo o tipo de tragédia e a trabalha de uma forma humorística - atenção que não é um humor saudável mas sim daqueles que nos corrói o coração ao longo do tempo. Trata a realidade da classe trabalhadora baixa, uma realidade de pobreza, de abandono parental e de negligência e temáticas importantes como a homossexualidade, a gravidez na adolescência, o mundo das drogas, o alcoolismo, a mudança de género ou a adopção com uma leveza e uma simplicidade que nunca antes tinha visto. Sim, as situações são exageradas. Sim, é tudo levado a um extremo. Mas mostra uma realidade pela qual muita gente passa e que, por vezes, nem temos noção.

Se tivesse que escolher uma personagem favorita, escolheria o Frank. Partilhando o holofote como personagem principal com os demais, é o progenitor desta família, um alcoólico, vigarista nato e inteligente como ninguém. É daquelas personagens tão odiáveis que acabamos por gostar, porque começamos a imaginar o que terá tornado aquela pessoa tão má assim. A sua capacidade de se meter nos mais loucos esquemas, a sua perspicácia para angariar dinheiro e o seu desejo por aventura constante conquistam qualquer um, seja pela positiva ou pela negativa. Para além dele, a docura camuflada do Carl e o romance inesperado e bruto entre o Ian e o Mickey derrete o meu coração de cada vez que aparecem no ecrã. São realmente personagens bem conseguidas, com uma narrativa inteligente e muito trabalhada, que nos fazem viver a sua história, sentir as suas frustrações e gritar com o ecrã quando fazem algo errado - o que, acreditem, acontece demasiadas vezes. O guião está escrito de uma forma excelente, fazendo a classificação da série saltitar entre o drama e a comédia de uma forma subtil. Além disso, e uma vez que a série tem um total de 9 temporadas, podemos ver as personagens crescerdesenvolverem as suas personalidades e serem protagonistas das suas próprias intrigas. Isto torna a série muito mais dinâmica e cativante, porque existe sempre algo de novo a acontecer, sempre surpreendente e ainda mais dramático que no episódio anterior - como uma boa série assim exige. 

É impossível não mencionar a qualidade do elenco desta série. A personagem de destaque, Frank,  é interpretada de uma forma absolutamente soberba pelo William H. Macy - se não acreditam, saibam que ganhou 4 prémios e inúmeras nomeações pelo papel - e que demonstra uma qualidade ímpar como actor que se destaca dos demais. A intensidade com que a personagem é guiada através da expressão de homem trabalhador do actor é de louvar e mostra uma escolha inteligente de elenco por parte da produção. Para além dele, posso ainda parabenizar a actriz que interpreta a personagem de Fiona, Emmy Rossum que, apesar de, para mim, não se encontrar ao mesmo nível, não deixa de tornar a série naquilo que ela é e demonstrar grande capacidade performativa ao longo dos mais de 10 anos de gravações. Esta não é uma produção que exija grande figurino ou efeitos especiais, mas os cenários utilizados são muito adequados à realidade da narrativa e as escolhas sonoras inteligentes e adequadas a cada vivência da trama. Uma série que eu sabia que não me iria desiludir e que passou imediatamente para a minha lista de séries a recomendar para qualquer pessoa. Uma comédia pesada, real e bastante diferente daquilo que se encontra no grande ecrã!

"I trust you. That's bigger to me than I love you"

Já viram Shameless? Gostam desta série?

Séries // Shameless

sexta-feira, 19 de outubro de 2018

Séries // Gossip Girl

Existem séries que são intemporais e que, por mais que não nos identifiquemos com as mesmas, fazem com que tenhamos curiosidade em vê-las para saber porque se tornaram tão populares na altura em que foram lançadas. Entre a enorme lista de séries que encaixam nesta descrição podemos encontrar Gossip Girl, uma série que admito estar há algum tempo para ver e para descobrir o motivo de tanto alarido em torno de um drama juvenil e chegou finalmente o momento de o fazer.

Esta série começa com o retorno de Serena, uma das seis personagens principais, a Nova Iorque depois de um súbito e repentino desaparecimento. Este regresso rapidamente se torna o maior motivo de falatório no site de coscuvilhice do Upper East Side, escrito pela Gossip Girl, uma personagem com identidade incógnita. Lido por todos os membros do lado rico da cidade - e não só -, o site questiona as razões que levaram Serena a ausentar-se durante quase um ano. Este regresso é também questionado por Blair, a sua melhor amiga, que não sabia do paradeiro de Serena e que também exige justificações sobre o porquê do seu desaparecimento.


Não sei por onde começar com esta série, porque não consigo encontrar realmente nada de muito bom para dizer. Se na primeira temporada ainda conseguia manter-me presa por todo o drama circundante naturalmente às personagens, nas seguintes temporadas esse drama tornou-se excessivo e, francamente, demasiado repetitivo. Para mim esta série tem um grande defeito - não existe nenhuma personagem com a qual me consiga identificar. Seja pela atitude de nada os afectar ou pelo facto de acharem que por serem riquinhos são melhores que todos os outros, não consigo relacionar-me com as mesmas da forma que quereria e desejaria.

As personagens são bastante irritantes e inconstantes. Não sabem o que querem tanto a nível amoroso como a nível pessoal e interpessoal. Seja pela inconstância de Serena, que num dia namora com um e no dia a seguir namora com o vizinho do lado, pela vontade de Jenny de pertencer ao lado rico da cidade a todo o custo ou pela forma como Chuck reage quando colocado perante um problema, começamos a questionar a forma como as personagens foram construídas e encontramos incongruências claras no guião. Além disso, todos os problemas que estas têm são um tanto ou quanto irreais, o que torna a série um pouco aborrecida de ver porque seria pouco provável que algo do género acontecesse na realidade. Afinal de contas, a probabilidade de eu apanhar o meu professor envolvido num escândalo sexual ou conseguir chantagear pessoas influentes no mundo dos negócios é mínima, seja pela minha tenra idade ou por não ser assim tão simples desvendar um segredo dessa dimensão. Tendo em conta que esta é suposto ser uma série realista, perdemos um pouco o interesse na mesma pelas intrigas principais serem, tal como as personagens, mal construídas.

Como se a narrativa e as personagens já não bastassem, também a escolha de elenco não foi a melhor.  Os atores que interpretam as personagens principais desta série são medíocres e sem grande interesse a nível de performance em cena. Destaca-se a Leighton Meester, atriz que interpreta Blair, que dá à sua personagem a intensidade necessária para criar uma imagem de menina mimada, capaz de fazer tudo por amor e com um certo mistério por trás da sua capa de imbatível. Torna-se refrescante quando comparada com as restantes atuações dignas dos Morangos com Açúcar. No entanto, e depois de tecer tão maus comentários, tenho que elogiar a banda sonora da série, que vai mostrando umas belas opções musicais - Bon Iver, Feist ou Coldplay são algumas das bandas que podemos ouvir ao longo da trama -, e os figurinos das personagens que são de morrer por. Não posso deixar de fazer o reparo de que esta é uma série juvenil e, como tal, pode ser por isso que já não desperte em mim a emoção que outrora poderia despertar. Na minha opinião, e se gostam de séries juvenis, existem opções muito melhores - sugiro Skins, Skam, sobre a qual podem ler AQUI, My Mad Fat Diary ou até Girls - sendo esta um pouco mais pesada -, sobre a qual podem ler AQUI.

"You know you love me. Xoxo Gossip Girl"

Gostam de séries mais juvenis? Conhecem ou viam Gossip Girl?

Séries // Gossip Girl

quarta-feira, 25 de julho de 2018

Séries // The Handmaid's Tale

Mais uma daquelas séries que se encontram no fundo do baú durante muito tempo e que, depois de esgotar a lista de séries de comédia-romântica que existem para ver - e que tenho vergonha de partilhar por serem tão más - se esgotar. The Handmaid's Tale sempre me despertou atenção pela sua fotografia, acima de tudo. Parecia-me uma premissa interessante e, pelas críticas que ia encontrando no caminho, uma série de excelência. E assim, depois de tanto tempo aguardar, acabei por decidir começar a ver a série que a maior parte da população já viu.

Esta história distópica introduz-nos num mundo em que a taxa de natalidade desceu abruptamente e, como consequente do mesmo, impõe-se nos atuais Estados Unidos da América um regime hierárquico, em que se encontram no poder homens que defendem a religião praticada na sociedade. Neste regime, as mulheres são tratadas como o fundo da hierarquia, não tendo qualquer poder dentro na sociedade nem no próprio seio familiar - sendo inclusivamente impedidas de ler. A cada casal infértil é atribuída uma handmaid, responsável por conceber - através de um ritual religioso  - e carregar o feto do casal como uma incubadora humana. No final da gravidez, tem que entregá-lo ao mesmo, partindo para outra família.


Esta foi uma daquelas séries que demorei a digerir. Tive que procurar opiniões entre os meus amigos, explicações daquilo que tinha acabado de ver e dormir sobre o assunto. É uma distopia tão forte, tão crua e tão cruel que nos torce o estômago uma e outra vez. Nunca, na minha vida, pensei que existiria novamente um mundo em que os homens mandavam sobre as mulheres de uma forma tão extrema, fazendo da mulher uma máquina puramente sexual e para disposição da casa - um verdadeiro objeto. Uma premissa tão revoltante que faz com que demoremos a entender a qualidade da série e os horizontes que esta nos permite abrir. Esta aborda o feminismo, a violência de um regime extremista, o fanatismo e os abusos sexuais de uma forma tão diferente das demais séries que vi sobre os assuntos que me faz compreender o porquê de ser tão aclamada e ter sido tão vangloriada - com razão!

As personagens desta série deram comigo em doida, admito. Conto pelos dedos de uma das minhas mãos as personagens que efetivamente gostei - a Moira, a Janine e a Emily. A personagem principal, June, é uma personagem extremamente inconstante, saltitando entre um estado emocionalmente frágil e pouco desafiador para um estado de revolta e que tem vontade de resistir perante a lei. Esta característica volátil é difícil de entender, pelo menos para mim. O facto desta personagem estar constantemente a alterar entre estes dois estados - como se tivesse um interruptor - faz com que não consiga apreciar a sua forma de ser, por mais vontade que tenha de o fazer - afinal de contas, a sua situação não é a mais simples e seria de esperar sentir uma compaixão brutal por ela. As duas personagens que formam o casal - o Fred e a Serena - também envolvidos na linha principal da história são personagens tão ou mais complexas que a principal. Enquanto que o Fred se apresenta em determinadas cenas como um tirano, fanático pela religião e sem qualquer compaixão, no instante a seguir já demonstra amor, uma enorme fraqueza de carácter e uma tristeza atroz. Quanto à Serena, é  uma personagem de uma inteligência tal que me faz questionar o facto de ter aceite este regime que tanto negligenciava o seu trabalho. - isto deixa-me em dúvida quanto ao seu carácter e à forma como a personagem foi construída.

No entanto, e apesar das personagens criarem em mim um sentimento de irritação profundo, tiro o chapéu ao elenco excelente que a série ostenta. Qualquer personagem é impecavelmente interpretada por aqueles que assumem de corpo e alma a sua vida, sem qualquer excepção. Uma menção honrosa e um aplauso especial para a atriz que interpreta June, a atriz que interpreta Serena e a atriz que interpreta a Tia Lydia com uma brutidade tal que nos faz crer que não são personagens mas sim elas mesmas no nosso ecrã. Confesso que qualquer uma das três me deixa em arrepios de cada vez que entra em cena, de tão forte a sua presença. Para além da interpretação, a fotografia da série é impecável e os efeitos sonoros são utilizados de uma forma sublime. A premissa original, aliada a todos os factores que nomeei acima fazem com que esta série tenha sido o sucesso que foi e faz com que eu a recomende a vocês, para que também possam irritar-se com as personagens e ficarem chocados com o mundo em que poderíamos viver. Esta série só me deixa grata pelo mundo em que vivemos que, apesar de não ser justo em muita coisa e a igualdade ainda não estar assente a cem por cento, caminhamos nesse sentido com força e vigor.

"Nolite te bastardes carborundorum"

Já viram esta série? O que acharam das personagens?

Séries // The Handmaid's Tale

segunda-feira, 21 de maio de 2018

Séries // RuPaul's Drag Race

Não sou de programas de talentos. Ou melhor, adoro um bom programa de talentos musical para passar horas e horas de procrastinação a ouvir audições. No entanto, acabo por me cansar porque não gosto propriamente de acompanhar competições - para além de ficar triste por aqueles que saem, muitas vezes acho as eliminações um pouco injustas e demasiado regidas pela popularidade de determinado concorrente. Mas toda a minha opinião sobre este tipo de programas mudou quando, por curiosidade, comecei a ver o anteriormente badalado RuPaul's Drag Race.

Tal como o próprio nome indica, a premissa é simples - os concorrentes da competição são todos drag queens e o principal objetivo é ser coroado o vencedor da competição. Para isso, os concorrentes são submetidos a uma data de provas que comprovam as suas capacidades enquanto performers, artistas, costureiros e designers. Uma competição que não se restringe apenas a um talento em concreto mas a uma coleção deles, sendo procurados o talento, a autenticidade, empenho e carisma nos concorrentes.


Dizer que estou viciada neste programa é pouco. Desde que comecei a ver esta competição, muito recentemente, que já vi 10 das 13 temporadas disponíveis e, para piorar a situação, não consigo ver apenas um episódio isolado. Não é que este programa tenha uma história ou que os episódios estejam relacionados, uma vez que são episódios isolados com desafios distintos e diferentes entre si. Mas o facto de ser uma competição leva a que tenha uma vontade extra de continuar a ver para saber quem se torna a próxima vencedora. Além disso, aquilo que mais me cativa neste programa é todo o drama subjacente a cada episódio. No meu dia-a-dia não sou, de todo, uma pessoa conflituosa. No entanto, adoro um bom drama de rapariga e nesta competição isso é o pão nosso de cada dia.

Semelhante a America's Next Top Model na forma como os episódios são criados e como a competição desenvolve, em RuPaul's Drag Race todas as semanas uma queen é eliminada após uma difícil prova de lip-syncing contra a sua oponente, posicionada no fundo da tabela de pontuações. Ao contrário do que aquilo que a maioria do público pensa - as drag queens têm algum talento para além de se vestirem de mulher? -, existe muito por trás de qualquer drag queen. Desde a maquilhagem, que demora normalmente mais de 2 horas a ser terminada, à roupa pensada meticulosamente para a ocasião, passando pela performance ensaiada durante horas a fio, com muito suor, dedicação e esforço, são tudo características avaliadas nesta competição. O facto de serem postos à prova diversos talentos bastante distintos entre si faz com que a mesma não se torne tão maçadora e que seja um pouco menos previsível, até porque ninguém é bom em todas as áreas a concurso e, portanto, nunca se sabe quando um dos favoritos à coroa tem uma semana menos boa.

Acima de tudo, admiro a coragem destes homens em assumirem a sua paixão e não terem vergonha de serem como são, sem quaisquer constrangimentos. Tal como digo sempre, cada um é como é, gosta daquilo que gosta e, acima de tudo, tem direito a fazer aquilo que entende com a sua vida profissional e pessoal. E se ser performer enquanto mulher é aquilo que estes homens gostam, então quem somos nós para dizermos que não podem fazê-lo? Portanto, se procuram um talent show com uma dose extra de talento em diversas áreas - dança, costura, música, teatro, comédia e modelar -, inspiração e um tanto ou quanto de dramatismo, este é o programa para vocês. Aconselho-vos, no entanto, a começarem por ver uma das temporadas mais recentes uma vez que as primeiras, como tinham um orçamento mais baixo, acabam por não ter uma qualidade tão boa como as mais recentes.

If you can't love yourself, how the hell you're gonna love somebody else?

Já conheciam este talent show? O que acharam?

Séries // RuPaul's Drag Race

Com tecnologia do Blogger.
My Own Anatomy © . Design by FCD.